sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fome



Our silence will not protect us.
Audre Lorde

Entre as muitas palavras que imediatamente vem à mente para descrever esse livro, a mais forte é, sem dúvida, coragem. Escrever sobre um trauma e ter a bravura de narrá-lo como Roxane Gay faz nas páginas de Fome: uma autobiografia do (meu) corpo, que acaba de ser publicado pela Globo Livros, é um passo importante para todas que sobreviveram a uma violência tão terrível quanto a sofrida pela autora. Logo no primeiro parágrafo do livro, Roxane afirma:

“A história do meu corpo não é uma história de triunfo. Esta não é uma autobiografia sobre perda de peso. Não haverá uma foto da minha versão magra, meu corpo esbelto adornando a capa deste livro, eu de pé dentro de uma das pernas do jeans de quando eu era mais gorda. Este não é um livro que irá oferecer motivação. Eu não tenho nenhum insight poderoso quanto ao que é necessário para superar um corpo e um apetite indisciplinados. Minha história não é uma história de sucesso. Minha história é simplesmente uma história verdadeira”.

Este é um livro-grito, um livro-corpo; é a voz de alguém que tenta lidar com os eventos traumáticos do passado, que deixaram marcas profundas com as quais é preciso aprender a conviver e isso não é um processo fácil; é também um livro-afirmação, que revela com muita sinceridade a dor causada pelas imposições de nossa sociedade sobre os corpos das mulheres, sobre a gordofobia que causa tanto sofrimento a inúmeras pessoas mundo afora. Explico: aos doze anos, Roxane Gay, uma menina negra e de classe média vivendo nos Estados Unidos, foi violentada por um grupo de garotos da escola. Como acontece a muitas crianças, meninas e mulheres, Roxane calou-se diante de tamanha violência. E sofreu com esse segredo por anos.
Mantendo silêncio sobre o estupro que sofreu, sentindo-se culpada (pois infelizmente a sociedade em que vivemos nos ensina a sentir culpa, mesmo quando somos vítimas), Roxane não diz nada aos pais ou aos amigos. Cada vez mais introspectiva, ela encontra na comida um consolo, uma fuga, um espaço de proteção. Alguns estudos com vítimas de violência sexual indicam o aumento de peso (e também os transtornos de ansiedade, insônia, depressão, entre outros) como um sintoma comum. Para Roxane, como para muitas mulheres, comer compulsivamente e engordar bastante foi uma forma de se proteger e de ficar invisível aos olhos dos homens e, portanto, livre de sofrer outra violência sexual, uma vez que deixou de ser "desejável" de acordo com os padrões esperados dos corpos femininos.
“O que você tem de saber é que a minha vida é dividida em duas, repartida de forma não muito caprichosa. Há o antes e o depois. Antes de engordar. Depois de engordar. Antes de ser estuprada. Depois de ser estuprada”. (p. 19)

            É importante destacar que a compulsão alimentar é um comportamento inconsciente e, mais importante ainda para refletirmos sobre a gordofobia e os padrões tão violentos impostos principalmente às mulheres é nos perguntarmos: por que ser gorda é ser invisível? Acho que essa é uma pergunta chave que o livro deve despertar em nós.
Nem sempre o corpo gordo foi estigmatizado como ocorre nos dias de hoje, onde em todos os cantos há informações sobre uma nova forma de emagrecer, uma nova dieta do momento, por mais absurda e violenta que seja; há sempre um novo discurso que faz com que as mulheres estejam sempre insatisfeitas com seus corpos, numa busca por um padrão quase sempre impossível de alcançar. E isso causa grande sofrimento. É bom lembrar que o corpo gordo era valorizado na Idade Média como sinal de poder e ascendência, só para dar uma amostra de como esses padrões flutuam com o tempo e de acordo com certos interesses (Georges Vigarello fala mais sobre isso no livro As metamorfoses do gordo). Com o tempo, as normas nas sociedades ocidentais passaram a ser cada vez mais exigentes em relação à aparência pessoal e corporal, refletindo também as desigualdades de gênero entre homens e mulheres na medida em que as cobranças em relação ao corpo feminino passaram a ser muito mais severas. Vale a pena perguntar a quem interessa manter as mulheres insatisfeitas consigo mesmas, sempre odiando seus corpos, e fazendo tudo o que for possível para atingir o padrão de magreza estabelecido como o desejável.
É relevante ter em mente também que nem todas as pessoas gordas vivenciaram alguma violência e que nem todas as vítimas de violência serão gordas. Esta é a história de Roxane, na qual ela encontra, através da escrita e do feminismo, a sua verdade. Mas há muitas outras pessoas gordas, lutando para serem felizes com o corpo que tem, apesar dos embates diários que precisam travar para se aceitar em um mundo que a todo instante diz que uma pessoa gorda é sinal de doença, de fracasso, de falta de vontade, de anormalidade, de feiúra. Ainda estamos longe de chegar a ser um mundo de respeito pelas diferenças em todos os sentidos, de respeito ao outro, de aceitação. Mas há muitas mulheres inspiradoras por aí, mostrando que é possível resistir a essa busca por conformidade. Nesse ponto, o livro me incomodou em alguns momentos pelo enfoque negativo dado a esse corpo gordo, mostrado por vezes como um empecilho. Tem muita gente aí mostrando o contrário. Contudo, entendo também que faz parte desse relato mostrar o processo vivido por Roxane, de passar por momentos de assimilar o discurso negativo sobre o corpo gordo com o qual somos todas bombardeadas diariamente, e também os momentos de resistir a esse discurso, de combatê-lo. E o feminismo serve de força nesses momentos.

 “Mesmo sendo tão jovem, eu compreendia que ser gorda era ser indesejável para os homens, ter o desprezo deles, e eu já sabia demais sobre o desprezo deles. Isso é o que ensinam à maioria das garotas – que devemos ser magras e pequenas. Não devemos ocupar espaço. Não devemos ser vistas e ouvidas, e, se somos vistas, devemos ser uma visão agradável aos homens, aceitáveis na sociedade. E a maioria das mulheres sabe disso, que nós devemos desaparecer, mas isso é algo que tem de ser dito de forma ruidosa, repetida, para que possamos resistir a nos render àquilo que esperam de nós”. (p. 18)


Fome é um livro extremamente honesto, e por isso mesmo, muitas vezes sofrido de se ler, no qual a autora fala sobre os traumas, as dores, os medos, as dificuldades que enfrenta diariamente por ser uma mulher negra e gorda (e também bissexual), desde os problemas para encontrar roupas, às dificuldades de estar em alguns espaços, aos comentários ofensivos e cruéis que tem que ouvir sobre seu corpo. Mas é também sobre os sonhos de Roxane, seu encontro com a escrita, pois sempre foi uma aluna brilhante, sobre seu percuso de resistência diante das dificuldades. A fome de que fala Roxane não é apenas por comida, e sim uma fome de muitas coisas que ela deseja poder fazer e construir. E do ponto de vista da violência sofrida, ser capaz de contar essa história de forma crua e intensa é um grande passo para a autora e para outras muitas mulheres que podem encontrar nesse livro uma inspiração para romperem o silêncio que, como diz a Audre Lorde, não vai nos proteger. Vale a leitura.


Roxane Gay é autora do best-seller do New York Times, vencedora de diversos prêmios de prestígio. PhD em Comunicação pela Universidade Técnica do Michigan, Roxane, além de escritora e palestrante, é editora e professora de Escrita Criativa na Universidade de Purdue. Atualmente mora em Lafayette, Indiana, e, de vez em quando, em Los Angeles.
* Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

[Adriana Lisboa]

Bastaria  


Bastaria
algum tempo sem vencimento
aberto como asas
onde não haja sorrisos úteis nem
papéis a endossar. Um vão
entre duas felicitações
contemporizações - por exemplo
(pensar em) margear
Buenos Aires: poetas
Bornéu: primatas
adentrar a ideia dessas coisas.
Bastaria um templo
o céu cobalto que me ignora
raízes varando paredes
menos do que residuais.
Bastaria subtrair: sem eventos
sem motivos
e como desde sempre soubemos,
bastaríamos nós.


Balão

O balão leva alguém
para uma volta ao mundo - é
o que você escolhe pensar, pés fincados
no cimento mole da manhã em que
todos os voos são imaginados
ou impossíveis, como o do balão
que brota do horizonte tal uma
pera invertida e cujas cores
mal se podem distinguir (mas você sabe
que as há, se as há sempre, se os balões são
animais do ar, da cor, do risco).
O balão sobre em seu perigo lento.
Daqui de baixo você sorri de sua própria
fantasia (é só um sujeito se divertindo
lá em cima numa manhã
de quarta-feira, só isso) e segue
em frente: uma vez pedestre,
sempre chão.

Promessa

O prato da casa
é a sobrevivência, então
não se preocupe. Não se preocupe.
Mesmo com todos os
estilhaços, a areia na garganta,
mesmo que eu tenha nos olhos
um cansaço de trincheiras,
mesmo assim, veja:
continuo de pé. Um joão-bobo,
um náufrago de pança inchada
subsistindo de sol a sol.

Adriana Lisboa. Parte da paisagem. São Paulo: Iluminuras, 2014.

sábado, 11 de novembro de 2017

[Susan Sontag]


Você disse que devemos à literatura quase tudo o que somos e fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerá a história e também os seres humanos. Tenho certeza de que você está certo. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e memórias. Eles também nos dão o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é apenas uma forma de escapismo: uma fuga do mundo “real” cotidiano para um mundo imaginário, o mundo dos livros. Mas os livros são muito mais. São um modo de sermos plenamente humanos.


Susan Sontag, “Carta para Borges”, 1996.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Minotauro



Alguns livros (hoje em dia cada vez mais raros) nos conquistam desde a primeira página. "Minotauro" é, sem dúvida, um deles. Pela própria forma como a narrativa é construída, o leitor, principalmente o mais curioso, não consegue deixar de lado uma história assim tão intrigante. Logo nos damos conta de que nós é que estamos presos no labirinto criado por Tammuz. Por conta do suspense estabelecido ao longo do texto, que só desvendamos de fato no final, Minotauro é um daqueles livros destinados a viver na prateleira de livros favoritos dos leitores mais exigentes. O livro, que foi um grande sucesso mundo afora nos anos oitenta, finalmente chega aos leitores brasileiros pela editora Rádio Londres com tradução direta do Hebraico de Nancy Rozenchan.

O enredo conta a história de um homem, um agente secreto, que no dia do seu aniversário de quarenta e um anos está sozinho em um quarto de hotel, bem longe de casa. Sabemos que o relacionamento dele com a sua esposa e seus três filhos é muito frio e distante. É um homem introvertido, misterioso, que vive em solidão.
Quando o agente secreto entra em um ônibus de uma cidade que a princípio não sabemos muito bem qual é, apenas que é bem distante de sua cidade de origem, ele finalmente encontra o objeto do seu amor: mas ela tem dezessete anos e ele, quarenta e um. Impossível não pensar na Lolita, do Nabokov:
"A jovem da esquerda tinha cabelo cuja cor era uma espécie de cobre, cobre escuro, brilhando com um reflexo dourado. O cabelo era liso e preso na nuca com uma fita de veludo preto, atada num laço cruzado. A fita, assim como os cabelos, destacava-se pela limpeza fresca, o tipo de limpeza imaculada que é encontrada nas coisas que ainda não foram tocadas pela mão que manuseia" (p.13)

Obcecado por Téa, ele começa a segui-la silenciosamente e o "diálogo" entre eles passa a acontecer através de cartas anônimas que ele começa a enviar para ela. Téa não sabe quem escreve essas cartas, nem para onde poderia enviar uma resposta, então começa a escrever cartas para ele, guardando-as em uma caixa destinada a esse remetente anônimo, que um dia ela espera conhecer. Quem seria esse homem misterioso, que já sabe tanto sobre ela, e que lhe escreve cartas tão belas de amor? Apesar do discurso "amoroso" das cartas, é difícil não pensar que mulher receberia estranhas cartas anônimas por tanto tempo de um homem que claramente está obcecado por ela e não sentiria medo, e não contaria para ninguém. Mas Téa, logo nas primeiras páginas, é descrita pelo narrador como alguém fácil de manipular, que faria tudo o que ele quisesse: "capaz de devoção total, entusiasta" (p. 15). Téa, portanto, não tem voz nessa história, assim como as demais mulheres que aparecem ao longo do narrativa. Todas aceitam passivamente e com total subserviência o que os homens lhes ordenam. Isso é algo que sem dúvida merece ser pensado durante a leitura de Minotauro.

Há uma tensão que perdura por toda a narrativa, e paira no ar a sensação de que algo trágico vai acontecer. Podemos sentir isso na angústia de Téa, que acaba por se envolver cada vez mais com essas cartas, que, feito fios, passam a prendê-la pouco a pouco no mistério desse homem que ela nunca viu, do qual ela pouco ou nada sabe, mas que a imaginação lhe permite idealizar. As fantasias românticas de Téa casam-se perfeitamente com o delírio obsessivo do agente secreto que manipula seus sentimentos durante anos.
"Você jamais terá a oportunidade de me formular perguntas, mas a minha voz chegará a você por meio de cartas, e eu sei que as lerá" (p.15, carta do agente secreto para Téa)
Temos assim uma troca de cartas, mas em alguns momentos lemos em sequência algumas cartas escritas pelo agente secreto, o que nos deixa imaginando as possíveis respostas de Téa, e, em outros momentos, lemos em sequência algumas cartas de Téa, o que também nos faz imaginar quais seriam as respostas de nosso agente secreto. Mas, enovelados que estamos nos fios dessa narrativa tão bem construída por Tammuz, lembramos que as cartas de Téa até então não haviam sido enviadas para ele, estavam todas em uma caixa. O diálogo foi todo através da imaginação. Da nossa imaginação e da imaginação desses personagens. 

Depois passa a haver de fato uma troca de cartas, que tornam-se menos ou mais frequentes em certos períodos. Assim como Téa, que espera pelas cartas de seu interlocutor anônimo, nós também ficamos aflitos por saber mais sobre esse personagem misterioso, obsessivo e romântico. 

Mais dois personagens são fundamentais para essa narrativa que tem quatro vozes importantes: G.R. e Nikos.
G.R., um rapaz também apaixonado por Téa, que faz de tudo para conquistá-la, surge como um terceiro elemento. Passa a estudar muito e a tirar boas notas na faculdade só para impressioná-la. Cultivou por muito tempo uma paixão platônica por Téa, até conseguir dela se aproximar. Mas qual homem poderia competir com o homem idealizado que, após anos de correspondências anônimas, mora no coração fantasioso de Téa? Ou será que um relacionamento real conseguiria destituir esse homem misterioso do mito que ele se tornou?

A quarta voz é Nikos, que deixa o coração de Téa em dúvida sobre sua verdadeira identidade. As semelhanças entre ele e o que ela imagina ser o agente secreto são muitas e Téa já está exausta de conviver há anos com esse suspense. Será que ele é o agente secreto com quem ela se corresponde há anos?

Por fim, o emaranhado de fios se desembaraça, não sem antes passear pela vida desses personagens, desde a infância. Esse passeio pelas lembranças do passado de cada um acaba por elucidar muitas de suas ações no presente em que se passa parte da história. Principalmente quando o passado do agente secreto é desvendado, a questão política ajuda a contextualizar no tempo e no espaço parte importante do enredo.

Minotauro é um livro inquietante, que nos faz refletir sobre a obsessão e a necessidade humana de amar e ser amado. É um livro triste por falar de uma solidão irreparável, sem salvação. Das marcas que relações familiares destituídas de amor podem deixar em nós a tal ponto de sermos capazes de reproduzi-las. Nem mesmo o amor de Téa pode salvar o minotauro do destino que ele acredita ser seu. Do mito do Minotauro na mitologia grega fica a lição: não há como enganar os deuses.


***
Benjamin Tammuz nasceu na Rússia, em 1919, e emigrou para a Palestina com a família aos cinco anos de idade. Estudou Direito e Economia na Universidade de Tel Aviv e mais tarde frequentou a Sorbonne, em Paris, onde cursou História da Arte. Foi escultor, pintor, romancista, jornalista e crítico literário. Por muitos anos foi editor do suplemento literário do jornal Ha'aretz. Durante quatro anos foi adido cultural da Embaixada de Israel em Londres. Seus romances e contos foram traduzidos para vários idiomas e receberam diversos prêmios literários, consagrando Tammuz como um dos mais ilustres expoentes da literatura hebraica contemporânea. O romance Minotauro foi eleito o livro do ano na Inglaterra quando foi publicado em 1989, tendo recebido elogios de grandes escritores. Benjamin Tammuz faleceu em 1989 em Tel Aviv. 

TAMMUZ, Benjamin. Minotauro. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015. Tradução: Nancy Rozenchan.

*Recebi este livro como cortesia da editora Rádio Londres.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

[Susan Sontag]



Jonathan Cott - Uma vez me disseram que você costumava ler um livro por dia.

Susan Sontag - Eu leio em excesso e de maneira muito descuidada. Adoro ler do jeito que os outros gostam de ver televisão, e de certa forma eu adormeço assim. Se estou deprimida, abro um livro e me sinto melhor.

Jonathan Cott - Como escreveu Emily Dickinson: "Flores e livros, confortos da tristeza".

Susan Sontag - Exato. Ler é minha diversão, minha distração, meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo, me enrosco a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo.

Susan Sontag, Entrevista completa para a Rolling Stone.

domingo, 29 de outubro de 2017

[Manuel António Pina]

Amor como em casa                                                         


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Café Orfeu

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.


Alguém atrás de ti

Como no sonho dum sonho, arde
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.

Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
A lâmpada do quarto? A criança?

Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.

Manuel António Pina. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, 2001.

* Manuel António Pina (18 de novembro de 1943 — 19 de outubro de 2012) foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prêmio Camões.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Martelo

a porca

a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.



o urubu

corpo de delito é
a expressão usada
para os casos de
infração em que há
no local marcas do evento
infracional
fazendo do corpo
um lugar e de delito
um adjetivo o exame
consiste em ver e ser
visto (festas também
consistem disso)
deitada numa maca com
quatro médicos ao meu redor
conversando ao mesmo tempo
sobre mucosas a greve
a falta de copos descartáveis
e decidindo diante de minhas pernas
abertas se depois do
expediente iam todos pro bar
o doutor do instituto
de medicina legal escreveu seu laudo
sem olhar pra minha cara
e falando no celular
eu e o doutor temos um corpo
e pelo menos outra coisa em comum:
adoramos telefonar e ir pro bar
o doutor é uma pessoa
lida com mortos e mulheres vivas
(que ele chama de peças)
com coisas.

Ivánova, Adelaide. O martelo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições garupa, 2017.

Adelaide Ivánova nasceu em 1982 na cidade de Recife. Jornalista, poeta, tradutora e fotógrafa, seu trabalho percorre o mundo em publicações impressas e digitais como i-D (UK), Colors (Itália), Te Hufngton Post (EUA), Modo de Usar & Co. (Brasil), Suplemento Pernambuco (Brasil) entre outras. "O Martelo" é seu terceiro livro de poemas.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O apocalipse dos trabalhadores



Neste romance, Valter Hugo Mãe nos presenteia com a história de duas empregadas domésticas em Portugal, Maria da Graça e Quitéria. Duas mulheres trabalhadoras unidas pela cumplicidade da amizade e de sua ocupação. Maria da Graça, casada com Augusto, um pescador, é quem sustenta a casa com seu trabalho como “mulher-a-dias”, como se diz em Portugal. Augusto passa a maior parte do ano no mar, e mesmo quando retorna não contribui muito com as despesas da casa. Maria da Graça trabalha na casa do senhor Ferreira, um homem rico e aposentado, que abusa sexualmente de Maria da Graça em sua condição de empregada doméstica, se apropriando do seu corpo como parte do serviço pelo qual paga. O sofrimento de Maria da Graça pode ser percebido pelos pesadelos que ela descreve ao longo da narrativa, da tristeza crescente que passa a demonstrar, mesmo depois da morte do senhor Ferreira, e consequente fim dos abusos. Uma amostra de que o sofrimento causado pela violência desses assédios pode durar muito mais tempo do que se imagina.

O peso das expectativas geralmente atribuídas às mulheres, como esse ideal de amor romântico que é reproduzido desde a infância com os contos de fadas em que todos são “felizes para sempre”, faz com que Maria da Graça comece a achar que está apaixonada pelo patrão. Essa imagem de uma mulher que é abusada sexualmente em seu ambiente de trabalho e assume um discurso totalmente naturalizante da violência, interpretando-a como amor revela o perigo desses discursos. Felizmente na história, a amiga, Quitéria, aparece como uma espécie de alter ego e diz a Maria da Graça o que nós temos vontade de dizer: Maria da Graça, "és muito nova para te deixares convencer que o amor é sermos violadas” (p.20). 

No romance, temos também a história de Andriy, um jovem que deixa seus pais na Ucrânia em crise, e migra para Portugal em busca de trabalho, como muitos fizeram na época da grande fome ucraniana. Andriy passa a se relacionar com Quitéria, ao mesmo tempo em que sente grande solidão por estar longe da família, com a qual se preocupa, e um tanto isolado, pois não fala português e em Portugal, concentrando-se unicamente no trabalho, passa a constatar quão violenta é a condição desumanizadora do trabalho, que desconsidera os sentimentos dos homens e passa a tratá-los como máquinas. Vemos com o relacionamento de Andriy e Quitéria também uma inversão dos papeis tradicionais de gênero, uma vez que é ele quem demonstra maior sensibilidade diante do relacionamento dos dois, mostrando como os homens também sofrem em uma sociedade patriarcal, que associa o masculino à virilidade, agressividade e também ausência de emoções.

O apocalipse dos trabalhadores é um romance que fala sobre a condição dos trabalhadores e trabalhadoras no mundo contemporâneo; é também um romance que fala sobre a bonita relação de amizade que surge nas circunstâncias mais inesperadas, assim como aborda a violência a que as mulheres estão constantemente submetidas, seja no ambiente doméstico, seja em seu local de trabalho. Acho que ele fala também sobre o problema dessa concepção idealizada de amor, o que somos levados a acreditar que é amor, e que, na verdade, é o que pode nos destruir, como acontece com uma das personagens. Levada a acreditar que a felicidade é “morrer de amor”, passa a considerar uma violência como amor, e põe fim à sua vida para alcançar esse ideal. E talvez seja isso o grande mérito do livro, fazer-nos refletir sobre aquilo que nesse mundo tão absurdo temos chamado de amor.

A nova edição pela Biblioteca Azul, atual editora de Valter Hugo Mãe no Brasil, conta com ilustrações exclusivas de Eduardo Berliner e prefácio de Ignácio de Loyola Brandão.

MÃE, Valter Hugo. O apocalipse dos trabalhadores. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

E o Prêmio Nobel vai para...


O escritor inglês Kazuo Ishiguro ganhou hoje o Prêmio Nobel de Literatura 2017 "por seus romances de grande força emocional que revelaram o abismo sob o nosso senso ilusório de conexão com o mundo", disse a Academia Sueca. Eu sempre lamento quando o prêmio não vai para uma escritora, mas hoje confesso que fiquei feliz com a premiação, pois Ishiguro escreveu um dos livros da minha vida (aquela listinha seleta de livros que me emocionaram muito e com os quais me identifiquei profundamente): Os vestígios do dia é um dos livros mais bonitos que eu já li. O filme, adaptado para o cinema em 1993, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, também é incrível. (Clique para ver o filme). Também gostei bastante de Não me abandone jamais (Never let me go), que já virou filme.



Kazuo Ishiguro nasceu em 8 de novembro de 1954, em Nagasaki, no Japão. A família mudou-se para o Reino Unido quando ele tinha cinco anos. Ele só voltou para visitar seu país de origem quando adulto. No final dos anos 1970, formou-se em Inglês e Filosofia pela University of Kent, e depois estudou escrita criativa na University of East Anglia. Desde a publicação de seu primeiro romance, Uma pálida visão dos montes (A Pale View of the Hills) em 1982, é escritor em tempo integral. Ele ganhou o Booker Prize em 1989 por Os vestígios do dia. Os temas mais associados às suas obras são a memória, o tempo e a desilusão. Seus dois primeiros romances são ambientados em Nagasaki, logo após a Segunda Guerra Mundial. Além dos oito livros publicados, Ishiguro também escreveu roteiros para o cinema e televisão.

Obras de Kazuo Ishiguro:

(1982) Uma pálida visão dos montes (A Pale View of Hills)
(1986) Um artista do mundo flutuante (An Artist of the Floating World)
(1989) Os vestígios do dia (The Remains of the Day)
(1995) O Inconsolável (The Unconsoled)
(2000) Quando Éramos Órfãos (When We Were Orphans)
(2005) Não me abandone jamais (Never Let Me Go)
(2015) O Gigante Enterrado (The Buried giant)

(Informações traduzidas por mim e extraídas do site da Academia Sueca, aqui ).

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escuro


A CARTA
(Ana Luísa Amaral)

Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -

AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015. p. 47-48.